Q.01

DHA serve para quê?

Na regulação, "DHA" costuma ser o ácido docosa-hexaenoico, um ácido graxo ômega-3. As funções que podem ser declaradas no rótulo são poucas: ajuda a manter a visão e a função cerebral normais, contribui para o desenvolvimento do cérebro e dos olhos do feto e do lactente e, junto com o EPA, ajuda a reduzir os triglicerídeos. Em cosméticos, a mesma sigla designa outra substância, a di-hidroxiacetona, usada como autobronzeador.

Abordagem: Consultei a lista da ANVISA de constituintes autorizados em suplementos alimentares e o registro de alegações de saúde da ANVISA. Também consultei o registro britânico de alegações nutricionais e de saúde (GB NHC Register), que cita os regulamentos da UE de origem, e o Anexo III do Regulamento (CE) 1223/2009 sobre cosméticos.

Brasil (ANVISA): suplementos alimentares

O DHA está na categoria Lipídeos, com a função "Fonte de DHA". As fontes autorizadas são:

  • óleos de alga: Schizochytrium sp., Ulkenia sp., Crypthecodinium cohnii, Aurantiochytrium sp. NH6181 [1][2][3][4]
  • óleo de atum e óleo de peixe com alto teor de DHA [5][6]

Alegações autorizadas [1]:

  1. "Fonte de Ômega 3": só se a quantidade de EPA + DHA atingir os mínimos da IN 28/2018.
  2. "Os ácidos graxos ômega 3 EPA e DHA auxiliam na redução dos triglicerídeos": exige no mínimo 1.500 mg de EPA + DHA na recomendação diária. Não é permitida se o suplemento também tiver fontes de fitoesteróis.

Limites de EPA + DHA por dia, por faixa etária:

FaixaMínimoMáximo
0 a 3 anosNão autorizadoNão autorizado
4 a 8 anos30 mg200 mg
9 a 18 anos37,5 mg250 mg
A partir de 19 anos37,5 mg2.000 mg
Gestantes e lactantes45 mg (desses, no mínimo 30 mg de DHA)2.000 mg

Fonte da tabela: [1]

No registro de alegações plenamente reconhecidas da ANVISA (alimentos em geral) não encontrei nenhuma alegação específica para DHA.

Reino Unido (regulamentos de origem da UE): alimentos

Alegações autorizadas e suas condições:

AlegaçãoCondição de usoRegulamento de origem
Manutenção da visão normalAlimento com ≥ 40 mg de DHA/100 g e /100 kcal; informar ao consumidor a ingestão de 250 mg/dia(UE) 432/2012 [7]
Manutenção da função cerebral normalMesmas condições da linha anterior(UE) 432/2012 [8]
Função normal do coração (EPA + DHA)Alimento pelo menos "fonte de ômega 3"; 250 mg/dia de EPA + DHA(UE) 432/2012 [9]
Triglicerídeos (EPA + DHA)2 g/dia; não usar em alimentos para crianças; aviso de não exceder 5 g/dia de EPA + DHA em suplementos(UE) 536/2013 [10]
Pressão arterial (EPA + DHA)3 g/dia; mesmas restrições da linha anterior(UE) 536/2013 [11]
Desenvolvimento cerebral e ocular do feto e do lactente amamentado (ingestão materna)200 mg/dia de DHA além dos 250 mg de EPA + DHA recomendados para adultos(UE) 440/2011 [12][13]
Desenvolvimento visual de bebês até 12 meses100 mg/dia; em fórmula de seguimento, ≥ 0,3 % dos ácidos graxos totais como DHA(UE) 440/2011 [14]

Alegações rejeitadas por falta de comprovação científica:

  • melhora da memória [15]
  • controle do peso [16]
  • motilidade espermática [17]
  • regulação do açúcar no sangue [18]
  • concentração e aprendizado em crianças [19][20]
  • desenvolvimento cerebral "ótimo" com DHA + ARA [21]

A alegação sobre doenças inflamatórias e reumáticas foi recusada por outro motivo: atribui ao alimento a propriedade de tratar doença, o que é proibido [22].

DHA em cosméticos: di-hidroxiacetona (CAS 96-26-4)

Na UE, a di-hidroxiacetona é uma substância restrita (Anexo III, entrada 322 do Regulamento 1223/2009). É permitida em produtos autobronzeadores até 10 % e como corante capilar em tinturas não oxidativas até 6,25 % [23].

Posso detalhar os mínimos da IN 28/2018 para a alegação "Fonte de Ômega 3" ou ver o uso de DHA em fórmulas infantis, se for útil.

Q.02

O DHA de algas é aprovado pela Anvisa?

Sim. A ANVISA aprova o DHA de óleo de algas como constituinte de suplementos alimentares e como novo ingrediente em alimentos convencionais e, para algumas fontes, em fórmulas infantis. Em suplementos, não é permitido para crianças de 0 a 3 anos. Nos alimentos, cada aprovação vale para uma cepa e um fabricante específicos.

Abordagem: Consultei a lista da ANVISA de constituintes autorizados em suplementos alimentares, o painel da ANVISA de novos alimentos e novos ingredientes aprovados, o painel de consultas sobre classificação de novos alimentos e o relatório de ingredientes autorizados. Nos dois últimos não encontrei registros de DHA de algas.

1. Suplementos alimentares (lista de constituintes autorizados)

Constituinte (fonte de DHA)Observação
Óleo de alga Schizochytrium sp.Especificações FCC / USP-NF [1]
Óleo de microalgas Schizochytrium sp. T18Aprovado pela RE nº 392 de 14/02/2019. "Autorizado apenas para os peticionantes até a inclusão na IN 28/2018" [24]
Óleo de microalgas Schizochytrium sp. ATCC PTA-9695Especificações do Reg. (UE) 2017/2470 e USP-NF [25]
Óleo de alga Ulkenia sp.FCC / USP-NF [2]
Óleo de alga Crypthecodinium cohniiFCC [3]
Óleo de alga Aurantiochytrium sp. NH6181Especificações do fabricante ADM (EUA). Também é fonte de lipídeos: mínimo de 5 g/dia para adultos; como fonte de lipídeos, não autorizado para gestantes e lactantes [4]

Condições comuns a essas entradas:

  • 0 a 3 anos: não autorizado.
  • Faixas de EPA + DHA por dia: 30 a 200 mg (4 a 8 anos), 37,5 a 250 mg (9 a 18 anos) e 37,5 a 2.000 mg (19 anos ou mais).
  • Gestantes e lactantes: 45 a 2.000 mg, dos quais no mínimo 30 mg de DHA.
  • Alegações permitidas: "Fonte de Ômega 3" e "redução dos triglicerídeos" (esta exige pelo menos 1.500 mg de EPA + DHA) [1].
  • Exceção na fonte Aurantiochytrium: o campo de adultos diz "37,5 g/dia" de EPA + DHA, e não mg como nas demais entradas. É assim que está publicado no registro [4].

2. Alimentos (novos ingredientes aprovados)

IngredienteRequerente / fabricanteAtoUso aprovado
Óleo de microalgas Schizochytrium sp. com DHAFoodstaff / MartekOfício nº 946/2009/GGALIAlimentos convencionais, máx. 80 mg/porção de DHA + EPA [26]
IdemDSM / MartekRE nº 4946 de 26/12/2014Idem [27]
Óleo de microalgas Ulkenia sp. rico em DHAArch Química / LonzaRE nº 135 de 15/01/2015Alimentos e bebidas convencionais, máx. 80 mg/porção [28]
Óleo de microalgas Crypthecodinium cohnii com DHADSMRE nº 36 de 05/01/2017Alimentos com informação nutricional complementar e fórmulas infantis [29]
Óleo de microalgas Schizochytrium sp. com DHAMead Johnson / DSMRE nº 2043 de 26/07/2018Alimentos convencionais (80 mg/porção) e fórmulas infantis conforme as RDC 43, 44, 45 e 46/2011 [30]
Óleo de microalgas Schizochytrium sp. (T18)BASFRE nº 392 de 14/02/2019Alimentos convencionais, máx. 80 mg/porção [31]
Óleo de alga Aurantiochytrium sp. NH6181ADMRE nº 1.213 de 24/03/2021Alimentos convencionais, com máximos de DHA por categoria (ex.: lácteos 0,20 %, bebidas não alcoólicas 0,08 %) [32]
Óleo de microalgas Schizochytrium sp. ATCC PTA-9695DSMRE nº 4585 de 13/12/2021Alimentos e bebidas convencionais (80 mg/porção) e fórmulas infantis conforme as RDC 43, 44 e 45/2011 [33]
Óleo de microalga Schizochytrium sp. com alto teor de DHANestlé / SofinolRE nº 890 de 16/03/2023Alimentos e bebidas convencionais, com máximos por categoria (ex.: queijos 600 mg/100 g, bebidas não alcoólicas 80 mg/100 mL) [34]

O que muda na prática: cada aprovação de novo ingrediente vem de um processo próprio, com requerente, fabricante e cepa definidos. Um óleo de alga de outra cepa ou de outro fabricante não está coberto automaticamente. A entrada T18 da lista de suplementos diz isso de forma explícita ("apenas para os peticionantes").

Posso abrir o texto das RDC 43, 44 e 45/2011 sobre adição de DHA em fórmulas infantis, se for útil.

Q.03

E para gestantes e crianças, tem regra?

Sim, existem regras. Nos suplementos alimentares, o DHA de algas é proibido até 3 anos de idade. De 4 a 18 anos há teto diário de EPA + DHA, e para gestantes e lactantes vale a faixa de 45 a 2.000 mg/dia, com no mínimo 30 mg de DHA. Em fórmulas infantis, o DHA de algas só entra pelas fontes com aprovação específica e nas condições das RDC 43, 44 e 45/2011.

Abordagem: Consultei a lista da ANVISA de constituintes autorizados em suplementos alimentares, o painel da ANVISA de novos alimentos e ingredientes aprovados e a Biblioteca de Alimentos da ANVISA (edição histórica de 2020). O texto das RDC 43, 44 e 45/2011 não está nas bases. Tentei abri-lo no portal do Ministério da Saúde e no Anvisalegis, mas o acesso foi recusado.

1. Suplementos alimentares: limites por grupo

As seis fontes de alga da lista têm os mesmos limites: Schizochytrium sp., Schizochytrium T18, Schizochytrium ATCC PTA-9695, Ulkenia sp., Crypthecodinium cohnii e Aurantiochytrium NH6181 [1][24][25][2][3][4]

GrupoEPA + DHA por dia
0 a 6 meses, 7 a 11 meses, 1 a 3 anosNão autorizado
4 a 8 anos30 a 200 mg
9 a 18 anos37,5 a 250 mg
Gestantes45 a 2.000 mg
Lactantes45 a 2.000 mg
  • Exigência de DHA na gestação e na lactação: a observação de todas essas entradas diz que, dos 45 mg diários de EPA + DHA, "no mínimo 30 mg devem ser de DHA".
  • Uso como fonte de lipídeos de 4 a 18 anos: é "Não autorizado". As entradas só permitem o uso como fonte de EPA + DHA.
  • Aurantiochytrium NH6181: como fonte de lipídeos, também é "Não autorizado" para gestantes e lactantes. Como fonte de EPA + DHA, vale a mesma faixa de 45 a 2.000 mg/dia [4].
  • EPA de alga (Schizochytrium): é proibido de 0 a 18 anos e permitido apenas para gestantes e lactantes (45 a 2.000 mg) [35].
  • Rotulagem: nenhuma dessas entradas traz requisitos adicionais de rotulagem para esses grupos.

2. Fórmulas infantis: só fontes aprovadas, nos termos das RDC de 2011

Três aprovações de óleo de alga incluem fórmulas infantis:

FonteAtoRegra para fórmulas infantis
Crypthecodinium cohnii (DSM)RE nº 36 de 05/01/2017Aprovada para fórmulas infantis, com referência às RDC 42, 43 e 44/2011 [29]
Schizochytrium sp. (Mead Johnson / DSM)RE nº 2043 de 26/07/2018Deve atender às RDC 43, 44, 45 e 46/2011 [30]
Schizochytrium ATCC PTA-9695 (DSM)RE nº 4585 de 13/12/2021Conforme as RDC 43, 44 e 45/2011 [33]

As demais aprovações de óleo de alga citadas na resposta anterior (Ulkenia, T18, Aurantiochytrium, Nestlé/Sofinol) cobrem apenas alimentos convencionais.

Escopo de cada RDC, conforme a Biblioteca de Alimentos da ANVISA:

  • RDC 43/2011: fórmulas infantis para lactentes [36].
  • RDC 44/2011: fórmulas de seguimento para lactentes e crianças de primeira infância [37].
  • RDC 45/2011: fórmulas para necessidades dietoterápicas específicas [38].
  • RDC 46/2011: aditivos alimentares e coadjuvantes de tecnologia nessas fórmulas [39].

Não consegui abrir o texto oficial dessas RDC. Por isso não informo os limites de DHA em fórmulas infantis (teor máximo em relação à gordura, relação com o ácido araquidônico e com o EPA).

3. Alimentos para crianças: aprovações com DHA de outras fontes

Não encontrei faixas por idade em nenhuma aprovação de óleo de alga. Elas existem para outras fontes de DHA:

  • Fosfolipídeos do ovo (Danone, RE nº 3536/2018). Teto diário de DHA de 150 mg para crianças de 36 meses a 4 anos, 200 mg de 4 a 6 anos, 250 mg a partir de 6 anos e 1.000 mg para adultos [40].
  • Óleo de atum em compostos lácteos para crianças acima de 3 anos:
    • 171 mg/30 g [41];
    • 30 mg de DHA por porção de 200 mL [42].

Posso tentar de novo o texto oficial das RDC 43 e 44/2011 (ou de normas que as tenham substituído) para trazer os limites de DHA em fórmulas infantis.

Q.04